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Histórias Pessoais

Como o Álcool Lentamente Se Tornou Meu Único Hobby

Trifoil Trailblazer
6 min de leitura

Uma das coisas mais tristes que o álcool fez na minha vida foi substituir em silêncio aquilo de que eu realmente gostava.

Não aconteceu com um estrondo dramático. Não houve um momento em que olhei para meus hobbies e decidi conscientemente abandoná-los. Foi mais lento que isso. Tão lento que só percebi quando tudo que eu amava já tinha sido esvaziado e preenchido com bebida.

Os Games Viraram Só Ruído de Fundo

Eu adorava jogos de computador de verdade. Me perdia neles por horas, acompanhando a história, apreciando as mecânicas, sentindo aquela satisfação de sacar alguma coisa ou superar um trecho difícil.

Em algum momento, comecei a somar bebidas "só para relaxar enquanto jogo". Parecia inofensivo. Uma ou duas cervejas para desligar depois do trabalho enquanto explorava um jogo novo. Nada de mais nisso, certo?

Mas devagar, de forma imperceptível, o jogo deixou de ser o ponto.

Eu ligava alguma coisa e mal prestava atenção no que acontecia na tela. Morria repetidamente no mesmo lugar porque meus reflexos estavam destruídos. Esquecia o enredo porque não estava processando nada de verdade. O jogo virou ruído de fundo, algo para ocupar as mãos enquanto eu me concentrava no que realmente importava: o próximo gole.

Eu dizia a mim mesmo que ainda era um gamer. Continuava comprando jogos, continuava falando sobre eles. Mas não estava mais jogando. Estava bebendo com um jogo rodando ao fundo.

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Os Amigos Viraram Compromissos de Bebida

O mesmo aconteceu com encontrar amigos. No começo era sobre as pessoas: conversar, rir, fazer coisas juntos. Ir a eventos, ter conversas de verdade, criar lembranças.

Com o tempo, meu planejamento mental mudou. Quando alguém sugeria sair, meu primeiro pensamento não era "o que a gente vai fazer?". Era "onde vamos beber e quanto?".

As pessoas, a atividade, o motivo real do encontro, tudo isso foi empurrado para o lado. O álcool virou a atração principal todas as vezes. Se não houvesse bebida, eu não me interessava tanto. Se estivéssemos num lugar onde eu não pudesse beber muito, me desligava mentalmente, pensando em quando poderia voltar para casa e beber de verdade.

Comecei a evitar amigos que bebiam pouco. Não conscientemente, eu só arrumava desculpas. E fui gravitando na direção de quem acompanhava meu ritmo, o que fazia tudo parecer normal.

A Corrida e a Academia Simplesmente Morreram

E, sinceramente, o mesmo aconteceu com a corrida e a academia. Eram hobbies de verdade para mim, coisas que me faziam sentir vivo, forte, capaz. Eu estabelecia metas, batia recordes pessoais, sentia aquela euforia da corrida ou a satisfação de terminar um treino puxado.

Quando a bebida assumiu, até isso morreu.

Eu não tinha energia. Como teria, se estava sempre bebendo na noite anterior ou me recuperando de ter bebido? A constância sumiu primeiro: eu pulava um dia porque estava mal, depois outro, e aí ficou mais fácil faltar do que aparecer.

A vontade foi embora em seguida. Treinar exige que você se importe com seu corpo, que invista no seu eu futuro. Mas o álcool faz você não se importar. Ele encolhe seu horizonte para o agora, este gole, este momento. Para que correr se dá para se sentir "bem" imediatamente com alguns drinques?

Então correr e treinar simplesmente sumiram. Eu dizia a mim mesmo que voltaria quando as coisas "acalmassem". Mas as coisas nunca acalmaram: a bebida não se acalma sozinha.

O Funil Lento

Não aconteceu da noite para o dia. Por isso foi tão insidioso. Por isso pareceu "normal" por tempo demais.

Foi uma mudança lenta em que tudo de que eu gostava, cada hobby, cada interesse, cada fonte de prazer genuíno, virou palco para beber. Tudo virou cenário. O evento de verdade, sempre, era o álcool.

  • Games? Só uma desculpa para beber sozinho em casa.
  • Amigos? Só parceiros de bebida.
  • Sair? Só oportunidades de beber em lugares diferentes.
  • Ficar em casa? Só beber com mais comodidade.
  • Exercício? Abandonado porque atrapalhava a bebida.

Minha vida inteira foi lentamente afunilando para um único hábito. Todo o resto foi arrancado ou transformado em algo irreconhecível.

A Pior Parte

A pior parte nem era a bebida em si. Era perceber que o principal hobby da minha vida tinha virado destruí-la.

Pense nisso por um segundo. A coisa em que eu gastava mais tempo, energia e dinheiro, a coisa que eu esperava com ansiedade, em torno da qual planejava tudo e que priorizava acima de todo o resto, estava lentamente arruinando minha saúde, minhas relações, meu potencial.

Isso não é hobby. Isso não é paixão. É só o vício vestido de normalidade.

O Que Aprendi Desde Então

Ficar sóbrio significou redescobrir do que eu realmente gosto ou, em alguns casos, descobrir isso pela primeira vez.

Os games voltaram a ser divertidos. Divertidos de verdade, não só algo que faço enquanto bebo. Eu lembro dos enredos. Consigo jogar por um tempo razoável e então parar porque estou satisfeito, não porque apaguei.

Os amigos voltaram a ser pessoas, não compromissos de bebida. A gente faz coisas de verdade juntos. Às vezes essas coisas são sentar e conversar, mas o ponto é a conversa, não os drinques.

E o exercício? Está voltando. Devagar. Meu corpo está se recuperando de anos de maus-tratos, e minha motivação também. Mas dá para sentir o velho prazer começando a retornar, aquela sensação de conquista e força.

Se Isso Soa Familiar

Se você está lendo isto e se reconhecendo nessas palavras, se seus hobbies foram silenciosamente virando desculpas para beber, se tudo na sua vida foi afunilado para um único hábito destrutivo, quero que você saiba de uma coisa:

Você não está sozinho. E as coisas que você amava continuam lá, esperando. Elas não desapareceram, só ficaram soterradas sob o álcool.

Com certeza, não quero que o principal hobby da minha vida seja destruí-la. E você também não precisa querer isso.

Recuperação é escavar a pessoa que você era, ou descobrir a pessoa que você nunca chegou a ser porque a bebida atravessou o caminho. É um trabalho lento, mas é trabalho de verdade. E vale a pena.

Seus hobbies estão esperando. Seus interesses estão esperando. Sua vida está esperando.

Você só precisa parar de enterrá-los.

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